Aprender com o passado, olhar para o futuro
Nas duas últimas décadas, a educação pública brasileira passou por transformações importantes. Embora persistam desafios profundos, muitos deles ainda urgentes, olhar apenas para as dificuldades nos impede de reconhecer avanços que mudaram a trajetória da escola pública no país.
Em 2005, 88,9% das crianças e jovens de 4 a 17 anos frequentavam a escola. Hoje, essa taxa é de 97,4%. A quase universalização do acesso mudou as perguntas que fazemos quando nos aprofundamos no debate público. Depois que a escola abre suas portas, o que acontece com os estudantes em sala de aula?
A resposta é complexa e passa por diversos caminhos. Entre eles, a alfabetização na idade certa, a capacidade de ler e interpretar um texto e de resolver problemas, a permanência até o final do Ensino Médio e a preparação para um mundo em transformação acelerada. Essa resposta também passa pela formação de professores, pela redução das desigualdades e pela gestão adequada do investimento público.
Quando olhamos para o presente, vemos que o copo, se não está cheio, está longe de estar vazio, para usar uma imagem fácil de reconhecer. Há redes que deram um salto qualitativo e, hoje, podem ser exemplos na alfabetização, valorização dos professores e responsabilidade na gestão. Há também experiências muito exitosas em políticas pedagógicas e na Educação integral em Tempo Integral.
Conseguimos, ainda, resistir aos retrocessos em algumas áreas críticas. A recente atualização das Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial de professores, por exemplo, preservou a exigência de metade da carga horária presencial nas licenciaturas, contra a proposta de baixar para 30%. O Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) de 2025 mostrou que há grande descompasso entre concluintes de licenciaturas a distância e presenciais. Mesmo assim, ainda é preciso avançar: formar um professor exige espaços de interação, reflexão coletiva e análise de práticas.
Em relação ao futuro, é positivo que o novo Plano Nacional de Educação (PNE) tenha elevado a régua para a aprendizagem, combinando metas mais ambiciosas com objetivos que, em sua maioria, buscam aproximar o país de avanços factíveis ao longo da próxima década. Um exemplo é o compromisso de zerar o percentual de estudantes que concluem a Educação Básica abaixo do nível básico de aprendizagem, ao mesmo tempo em que se amplia a parcela daqueles que alcançam o nível adequado. As metas apontam a direção, mas sua concretização dependerá das políticas públicas implementadas nos próximos anos, e as eleições de 2026 tornam esse debate sobre o futuro ainda mais decisivo.
O próximo ciclo eleitoral terá papel decisivo para transformar essa ambição em política pública. Nesse sentido, uma iniciativa importante do Todos Pela Educação, por exemplo, é um novo documento da agenda Educação Já: Dois Movimentos, Uma Só Agenda – Continuidade e mudanças para consolidar um projeto sistêmico na Educação Básica em prol da aprendizagem, que apresenta caminhos e prioridades educacionais para o ciclo político de 2027-2030.
Essa agenda precisa responder tanto aos desafios históricos da educação brasileira quanto às transformações que já impactam a escola e a sociedade. A difusão da inteligência artificial é talvez o exemplo mais evidente dessa mudança. Mais do que incorporar novas tecnologias ao cotidiano escolar, trata-se de garantir que os estudantes desenvolvam conhecimentos e competências que lhes permitam compreender, utilizar e conviver criticamente com essas ferramentas. Por isso, esse novo cenário reforça a importância de políticas públicas consistentes, professores bem formados e currículos capazes de responder aos desafios do século XXI.
Quanto mais o mundo muda, mais precisamos de políticas educacionais de qualidade e de decisões baseadas em evidências. Quando o Todos Pela Educação, a Fundação Santillana e a Editora Moderna, renovando parceria, produzem o Anuário Brasileiro da Educação Básica, estamos mostrando que dados importam. Reunindo indicadores, séries históricas e análises, o Anuário ajuda gestores, pesquisadores, jornalistas, educadores e cidadãos a constatar avanços, estagnação e desigualdades que possam subsidiar sua tomada de decisão.
Além da edição impressa, o Anuário também é uma plataforma online, com atualizações e artigos inéditos. Fica o convite para ler, consultar e utilizar este material. A educação dos próximos vinte anos depende de escolhas feitas agora.