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Anuário Brasileiro da Educação Básica
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Escolas educando humanos, para o bem da humanidade

A escola vive uma tensão histórica entre preservar e inovar. Desde o século XIX, muitas tecnologias foram apresentadas como capazes de transformá-la ou até substituí-la. Foi assim com o cinema, o rádio, a televisão e o computador. A escola, porém, incorporou essas ferramentas sem alterar profundamente sua forma e sua função.

Talvez por isso ainda haja pessoas que acreditem ser a Inteligência Artificial mais uma onda que passará por uma instituição com enorme capacidade de resistir. É melhor não apostar nisso. Será, sim, preciso transformar a educação, em um mundo em que a escola deverá ser uma instituição cada vez mais necessária.

A IA ainda está no começo de sua evolução. Entre o entusiasmo diante de suas possibilidades e o temor de seus riscos, é preciso olhar para a realidade do presente. E, hoje, a IA já está aí, ao alcance de crianças, jovens e adultos, e a escola precisa saber como agir. Os dados mostram um uso intenso no universo da educação, mas ainda de forma desorganizada.

Evidentemente, os educadores não podem estar sozinhos. É necessário estabelecer referências educacionais, políticas públicas e regulação. Nesse campo, o Brasil vem construindo um conjunto relevante de diretrizes para o uso responsável das tecnologias digitais e da inteligência artificial na educação. 

No evento Digital Learning Week, promovido em setembro de 2026 pela UNESCO, o Brasil foi citado diversas vezes pelos marcos regulatórios. Entre as iniciativas, foram lembrados o Referencial para o Uso de IA na Educação do MEC e as Diretrizes Orientadoras para o Uso da Inteligência Artificial na Educação Brasileira, tramitando no Conselho Nacional de Educação (CNE).

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Os marcos legais e as recomendações internacionais apontam para a mesma direção. O uso da inteligência artificial na educação precisa estar subordinado a uma clara intencionalidade pedagógica. Além disso, mais do que incorporar novos recursos, é fundamental garantir que eles contribuam para desenvolver o pensamento crítico, a autonomia e a capacidade cognitiva dos estudantes, evitando que a tecnologia substitua processos essenciais de reflexão, interpretação e produção do conhecimento. É preciso, ainda, ter uma forte governança, garantindo a segurança no uso das novas gerações de recursos tecnológicos.

Mas, ao mesmo tempo em que a regulação e os parâmetros avançam, os professores precisam assumir uma posição nesse processo – pois são e continuarão a ser os protagonistas do sistema educativo. Nesse contexto, o papel do docente é decisivo. Para isso, a formação continuada dos educadores torna-se indispensável, não apenas para o domínio técnico, mas para uma compreensão crítica, ética e pedagógica das possibilidades e riscos da IA.

Antes de sair adotando soluções mágicas e desalinhadas entre si, é tempo de repensar o que é essencial na Educação, para muito além do conhecimento. É hora de retomar o sentido, os propósitos, as competências e os valores que nos tornam humanos, e isso apenas é possível na interação real entre educadores e alunos. Afinal, parafraseando o filósofo francês Michel Serres, a escola, mais do que nunca, deverá ser o lugar onde humanos educam humanos, para o bem da humanidade.

Luciano Monteiro é diretor Global de Comunicação e Sustentabilidade do grupo Santillana e diretor executivo da Fundação Santillana
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